06-06-2012

06-06-2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Contos de Adriana Oliehoek


Minha pequena guerra


"Vossos filhos não são vossos filhos,
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados."

Estas palavras de Kahlil Gibran estão no verso de um cartão que recebi da Dienah, uma amiga antiga. Com letras elegantes escreveu: Para Sagita, 14 de setembro de 1986. É o dia do meu aniversário e estou três meses grávida do meu filho mais novo.

***
‘Mamãe,’ pergunta Davi: ‘Você ainda tem alguma coisa de Bert Thiecke?’

         Meus pensamentos se voltam para o passado, quando Davi ainda não tinha nascido, para o período tempestuoso da minha vida, a época da reviravolta; para a segunda metade dos anos setenta, o tempo de demonstrações e protestos. Queremos ação e nós mesmos fazemos as mudanças. Formamos grupos de trabalho e pomos as mãos à obra em bairros e comunidades. Eu mesma trabalho num centro de assessoramento jurídico gratuito e começo um projeto de saúde pública. Tudo isso com a finalidade de transmitir conhecimentos, tornar o povo mais emancipado para que seja menos dependente da assistência e do governo.
         Naquele período, conheci pessoas muito especiais, entre as quais o Bert. Olhando para trás, vejo que esse processo causou uma mudança em nós mesmos.  Pessoas aderiam à filosofia de Bhagwan, homossexuais saíam do armário e mulheres se tornavam, conscientemente, mães solteiras, entre as quais eu mesma. Alguns anos depois, tudo terminou.
         No verão de 1983, Bert foi assassinado por seu companheiro de vida, Stephen, com uma facada no coração. Em seguida, Stephen suicidou-se com uma overdose de remédios tirados da bolsa de Bert, que era médico.
‘Dois holandeses mortos numa barraca num camping na Itália’ são os cabeçalhos dos jornais.’

‘Bert Thiecke?’
‘Sim, tenho que fazer um pequeno documentário para a escola.’

         Davi está seguindo um curso para cineasta e quer agora – mais de 25 anos depois – fazer um filme sobre o acontecido. Durante dois dias viro a casa de cabeça para baixo à procura de vestígios de Bert. Tenho quase certeza que, não muito tempo atrás, procurando também por alguns recortes de jornais antigos, tive em minhas mãos o cartão fúnebre do seu falecimento. Cheia de esperança, separo os envelopes com margem cinzenta do monte de cartas com cartões referentes a Ano Novo, aniversários, férias que, no decorrer dos anos, guardei fielmente e que continuam esperando por um lugarzinho em algum álbum ou no cesto de papel velho. Procuro até na caixa vermelha com o legado da minha mãe e percebo que devo ter herdado dela a mania de guardar tudo. Recortes de jornais, cartões postais, santinhos e muitos cartões fúnebres de tios, tias, do meu pai e do meu irmão. No fundo da caixa, um pacote de felicitações em forma de poesia, escritas elegantemente por algum professor e enfeitadas com figurinhas, que costumávamos declamar por ocasião de alguma festa dos nossos pais.
         Não encontro o cartão fúnebre do Bert. Apenas um cartão da sua família, de um lugar no norte da Holanda, com agradecimentos pelo interesse demonstrado. Começo até a duvidar se recebi um cartão. O que a sua família sabia a respeito da vida dele, dos seus amigos, da minha existência?
         Dou-me conta que esqueci a idade dele e que tenho dificuldade em lembrar-me do seu rosto; loiro, olhos claros, provavelmente lentes de contato, uma presença agradável que não se impõe, tendo às vezes um traço leve de ironia em torno da boca. Não consigo ver com nitidez os seus traços. Nunca mais o vi. Bert é um daqueles homens de quem não tenho fotografia. Nos meus diários, começo, de vez em quando, a escrever uma carta para a sua família. Conto-lhes que sinto falta de Bert e peço uma fotografia com a qual quero manter viva a lembrança dele para mim e para o meu filho. A última tentativa é de maio de 1988. Arão tem então seis anos e Davi mais de um ano. Nunca, porém, cheguei a mandar uma carta para a família. A única lembrança que temos de Bert é uma pequena taça de prata, onde está gravado o nome do Arão. Um presente de nascimento. Fora disso alguns cartões postais que ele mandava para a gente. De vários lugares onde passava férias ele nos mandava suas lembranças amáveis, esperando reencontrar-se conosco em breve.

***

         Durante a minha busca para ‘algo’ de Bert, encontro o cartão de Dienah. Datilografado, já não acho o texto tão impressionante. Que a alma dos meus filhos mora agora na casa do amanhã, onde não posso visitá-los, se fixa na minha mente.
         Davi está cheio de planos. 'Mãe!', diz ele pelo telefone. ‘Sabe o que descobri?’
‘Não sei.’
'Bert e Stephen estavam em Verona. Lá eles foram assistir a uma ópera. E sabe como se chamava o camping onde eles ficaram?’
‘Não tenho ideia.’
'Romeo E Giulietta'